TOC: um transtorno silencioso, mas perigoso, que começa logo na juventude
Estudo descobre que afeta até 2% da população entre os 19 e 20 anos.
Por Victoria Marques
Segundo o Manual MSD, o diagnóstico do TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) em algum momento da vida. Esse transtorno mental se origina de uma angústia interna do indivíduo ou a partir da ansiedade, e se expressa através de pensamentos intrusivos, que são negativos e involuntários.
O transtorno afeta até 2% da população e surge entre 19 e 20 anos de idade, porém 25% dos casos têm início aos 14 anos. Uma pessoa é diagnosticada quando tem obsessões, compulsões ou os dois. A diferença desses termos é muito importante para entender essas pessoas.
- Obsessões são pensamentos, imagens ou impulsos que ocorrem frequentemente mesmo que a pessoas esteja pensando ou fazendo outra coisa, e deixam a pessoas ansiosa e angustiada. Alguns exemplos são a preocupação com contaminação, duvidar de ter feito algo (como trancar a porta ou apagar a luz) e a necessidade de manter objetos alinhados e uniformes.
- A compulsão, também chamadas de ritual, é a maneira de responder às obsessões, o que leva a atitudes repetitivas para aliviar a ansiedade: limpar um objeto mais de uma vez, verificar várias vezes a mesma coisa (se desligou o ferro de passar, se fechou a janela, etc).
O assistente de estilo Kauê Gomes Ferreira se lembrar de conviver com o TOC desde criança, mas só foi diagnosticado na fase adulta, durante a pandemia da COVID-19. Ele conta que precisou ser levado ao hospital por causa de um pensamento intrusivo, e assim percebeu que precisava de ajuda: “O pensamento que eu tive era de ‘se eu não bater na madeira agora, eu vou infartar’. Aí, nisso, eu comecei a ter uma crise de ansiedade muito forte, meu braço ficou dormente. Resumo da obra, fui parar no hospital com uma dor muscular estranha e não era nada relacionado”.
Mesmo na terapia, Kauê tinha dificuldade em compartilhar esse sentimento: “Como que uma pessoa vai entender que um momento qualquer do meu cotidiano do nada vai causar um episódio terrível? Não faz sentido eu estar em casa, tranquilo, e do nada vir um pensamento de que se eu não fechar a porta, minha casa vai pegar fogo”.
O TOC é acompanhado de outro transtorno, nesse caso, ele acabou desenvolvendo TA (transtorno alimentar): “Eu ficava contando todas as calorias, porque isso eu conseguia controlar. Até que o TOC te traí, e você foge do controle”. “O TOC é silencioso e solitário”, desabafa.
Especialista explica
A neuropsicóloga Thaís Barbisan explica que quem tem o transtorno pratica rituais na tentativa de aliviar a ansiedade, e isso gera muito sofrimento para a pessoa. “Esses pensamentos intrusivos, para quem tem um TOC de verdade, é um sofrimento interno, porque a pessoa, muitas vezes, tem vergonha de falar sobre isso. Então, esses pensamentos são o medo de que aconteça alguma coisa com alguém querido, medo de machucar alguém. No TOC infantil, principalmente, a criança acredita que ela é aquilo. Então, ela tem perguntas repetidas repetitivas para os pais, que isso é um já é um toque, um ritual.”
A pessoa que convive com o transtorno entra em um ciclo vicioso: “A pessoa quer aplacar esse pensamento, quer diminuir com outro pensamento. E com esses rituais, como é algo paliativo, muito genérico e de curto prazo, a pessoa vai ter de novo esse comportamento, esse ritual”.
As crianças também podem passar por isso, então é muito importante que os responsáveis se atentem aos sinais, como a hiperatividade e a repetição de perguntas: “É necessário o adulto observar esses sintomas, essa rigidez muitas vezes comportamental, que a criança tem e perceber que aquilo não faz parte dela, que é algo diferente e não levar isso como um preconceito”.
A neuropsicóloga explica que em muitos casos o TOC em crianças é um sintoma secundário, que pode surgir através de alguma neurodivergência. Para trabalhar isso com a criança, é importante prestar atenção no comportamento dela e estar aberto para conversar e leva-la aos profissionais que podem ajuda-la. O mesmo vale para os adultos, mas nesse caso, é preciso que a pessoa aceite a ajuda e se comprometa com a própria saúde para ter mais qualidade de vida.
A Central de Notícias da Rádio Paz é uma iniciativa do Projeto “GASLIGHTING: Uma violência sutil!”. Este projeto foi realizado com o apoio da 9ª Edição do Programa Municipal de Fomento ao Serviço de Radiodifusão Comunitária Para a Cidade de São Paulo.



