A Ciência e Sociedade
Com 73% dos brasileiros consumindo ciência redes, a falta de didática nos cursos amplia o distanciamento entre o conhecimento e o público
por Luiza Borgli
A palavra Ciência vem do latim e significa saber. Esse termo é usado para descrever um conjunto organizado de conhecimentos sobre um objeto específico, obtidos por observação, experimentação e um método próprio, visando descrever, explicar e prever fenômenos de forma sistemática. Porém será que o ser humano está ciente sobre o que é ciência?
Com a pandemia, surgiu um acréscimo de divulgação de informações falsas ou enganosas apresentadas como se fossem ciência, mas isso não é de hoje. A pseudociência, teorias da conspiração, soluções “milagrosas” sem base científica e interpretações erradas de dados reais são métodos usados para confundir, enganar ou reforçar crenças pessoais, ideológicas ou políticas ao público. Porém, a desinformação científica no Brasil não surge apenas de fake news, ela se alimenta também de barreiras estruturais históricas, como o acesso desigual ao conhecimento científico, a linguagem altamente técnica usada por pesquisadores e a elitização da produção desse conteúdo.
O biólogo e educador aqui no Plano de Inseto, Mário Kokubu, fala sobre a dificuldade da ciência em se comunicar com o público, e como isso impacta diretamente em transformar estas informações acessíveis:
“Antigamente, vamos dizer, até o começo da pandemia, a ciência tinha um grande problema de comunicação com público em geral. Ela ficava alí numa torre de mármore, só a ciência fala com a ciência. Hoje, a gente vê que a importância disso é é gigantesca, para evitar muitas desinformações que aparecem.Então, na verdade é seria a ciência aprender a se comunicar com o público comum, saber se expressar, e saber dizer o que está acontecendo dentro da universidade e então, convidar o pessoal a vir conhecer os dentro de um centro de pesquisa, como ocorre isso, todas essas informações são interessantes também para o público.”
A combinação desses fatores com a dificuldade de comunicação por parte da ciência, cria um ambiente no qual a população tem pouco contato a informação de qualidade e, por consequência, fica mais vulnerável a narrativas simplificadas, distorcidas ou completamente falsas. Fernanda Oliveira, é dona de restaurante, e durante sua visita ao Planeta Inseto, contou sobre o pouco acesso que tem a conteúdos sobre biologia e como lugares com este são essenciais para desenvolver o conhecimento:
“É uma visita bem divertida, muito legal, as crianças estão adorando e é divertido para a gente também, é interativo, né? Bem legal… A gente não faz ideia direito de como são os processos biológicos de todos esses animais.E aqui o próprio instituto acho que é muito pouco falado sobre ele, porque é um passeio super legal. Poderia ser algo super impresso, né, na no dia a dia de quem mora na cidade grande, mas assim, muito pouco.”
De acordo com a Pesquisa de Percepção Pública da Ciência e Tecnologia , apenas uma pequena fração dos brasileiros consegue lembrar o nome de uma instituição de pesquisa ou de cientistas brasileiros, o que demonstra baixo contato com a produção científica formal no dia-a-dia da população. Além disso, embora cerca de 62% demonstrem interesse por temas de ciência e tecnologia, a maioria ainda acessa essas informações por meios indiretos ou secundários, como resumos em mídias digitais, e apenas uma parcela pequena visita espaços científicos ou culturais formalmente.
Ainda segundo o biólogo, Mário Kokubu, a democratização da ciência deve começar entre os cientistas, que podem tomar algumas decisões e realizar alguns ajustes para tornar a vida da população mais fácil:
“Eu falo assim: geralmente é um curso de bacharel, principalmente na área ligada à pesquisa. Todo curso de bacharel deveria ter um curso de didática, sabe? Fazer o pesquisador, ou o aluno que tá se formando, saber se comunicar com o povo, com o público que ele vai atender, seja uma criança, seja um adulto. São diferentes idades, e é preciso saber se comunicar com cada uma delas. A ciência também precisa ter mais espaços de museus, mais espaços de visitas dentro das universidades. Essa comunicação, eu acho que ainda é muito falha na ciência, na pesquisa.”
A fala reforça que a comunicação científica no Brasil ainda é marcada por distanciamento e falta de preparo formal. Segundo o depoimento, a ausência de disciplinas de didática nos cursos de bacharelado dificulta que futuros pesquisadores aprendam a conversar com diferentes públicos. Aliado a isso, a escassez de espaços acessíveis, como museus e programas de visitação em universidades, amplia o abismo entre quem produz ciência e quem deveria se beneficiar dela. Ampliar essa ponte é essencial para que o conhecimento circule, seja compreendido e finalmente cumpra sua função social.
A Central de Notícias da Rádio Paz é uma iniciativa do Projeto “GASLIGHTING: Uma violência sutil!”. Este projeto foi realizado com o apoio da 9ª Edição do Programa Municipal de Fomento ao Serviço de Radiodifusão Comunitária Para a Cidade de São Paulo.



